As 3 dimensões humanas




A esperteza divide, enquanto a sabedoria inclui – Eckhart Tolle – da coleção.

Fala-se por aí que a internet vai mudar o ser humano.

Vai mudar, sim, a sociedade, nossa relação cognitiva com a informação, porém, nada além disso.

O que for a mais, depende de outras ações, que podem ser em rede, mas não são consequências diretas da internet.

Para discutir esse tema, é preciso aprofundar como se estrutura as camadas humanas para saber até onde a internet vai alterar coisas.

E qual é a nossa parte nesse cenário para não criarmos falsas expectativas e achar que os problemas humanos serão resolvidos com tecnologia.

Cada vez que acredito nisso, acreditar na tecnologia salvadora, caio do cavalo, pois é uma ilusão fácil e à mão.

Tá ali numa maleta do lado da cama.

Uma inviabilidade em que os iluministas caíram acreditando no papel impresso.

E já acumulo várias quedas.;)

Vejam o desenho abaixo para refletirmos:

A camada superior – mais acima -  é aquela que nos dá a dimensão humana, a capacidade que temos de lidar com nosso ego, que insiste em tomar conta da casa.

O ego quer todo dia nos levar para passear e fazer xixi. É o nosso lado repetidor, conservador, nosso instinto de morte rotineira, no qual nosso cérebro fica embotado de cotidiano, sensos comuns, etc.

Nesse espaço mais aberto – no espaço que conseguimos nos discriminar do ego -  vamos responder algumas perguntas fundamentais, do tipo:

Para quem? Por quê? Para quê? Que são questões ético-filosóficas mais amplas e que exigem nossa presença, nossa individualidade, nosso olhar turista no mundo, aquilo que em nós vibra de forma diferente fora da rotina.

Se você responde, por exemplo, essas questões com “eu, eu, eu”, ou a organização que você trabalha afirma que o negócio é lucrar a qualquer custo, já tens um primeiro passo para definir o que virá como consequência.

Já tens um sintoma claro do problema geral de uma relação deturpada com o ego, que nos leva para passear, quando deveria ser o contrário.

A sabedoria é um exercício diário de autoconhecimento.

Não é cumulativa, pois é um processo de relação com o mundo, pessoas, objetivos, seres vivos.

Todo dia é dia de investir na sabedoria, que não é cumulativa, pois é relacional.

Ponto.

Não existe, assim, o sábio, mas o que prática hoje a sabedoria – amanhã, vamos ver.

Não é à toa que os grupos de mútuoajuda defendem o “só por hoje”. E tem missa todos os dias, numa tentativa de reavivar o espiritual no material.

(Se a missa virou rotina, é problema inerente das religiões que embotam, mais do que desembotam.)

A relação que estabelecemos com o mundo, a capacidade de estarmos presente naquilo que fazemos, de ter consciência de nossas ansiedades, compulsões, depressões, euforias, vaidades, etc.

E lidar melhor com elas.

Isso é algo que se constrói todos os dias, variando, conforme nosso estado de espírito, situações objetivas, emprego/desemprego, relações afetivas/saudáveis/abusivas, saúde/doença etc.

Essa não varia, conforme o uso da tecnologia é algo humano relacional diário, independentemente do ambiente informacional.

Está no nível das coisas não-materias, ou se preferirem, espirituais de cada um e do todo.

No segundo nível, temos o conhecimento e a informação, a capacidade de nos relacionar com nosso lego, que entra na faixa da sobrevivência, da garantia de manter a qualidade de vida.

(Obviamente, que a sabedoria influencia no que entendemos por sobrevivência, qualidade de vida, se estamos incorporando mais gente nessa ideia de qualidade, incluindo o planeta.)

Chamo lego aquele ser criativo que reside em todos nós e que de quando em quando nos dá, do nada, uma resposta para alguns problemas.

Esse está diretamente influenciado pelo ambiente informacional, varia conforme a maneira com que nos relacionamos com ele.

É o lado inovador, atuante, mas que terá ações, conforme a relação que estabelecemos com nosso ego.

E, por fim, na rabeira dos resultados, o ambiente da ação que é o resultado imediato de como lidamos com nosso ego e com nosso lego, no equilíbrio afetivo/cognitivo, que nos leva para frente para um mundo novo e sem repetição.

Ou para trás, para as neuroses, para as repetições, para as compulsões.

Podemos dizer que a relação saudável com o ego e o lego é a sanidade e vice-versa.

Temos a ilusão de que a internet vai conseguir resolver nossos problemas humanos. Todos os sonhos acumulados virão com ela, como um passe de mágica.

(Fiz um áudio que fala mais sobre isso.)

Mas se não investimos na sabedoria, que está acima dos outros dois, não conseguiremos usufruir desse ambiente de forma saudável, tendendo à ansiedade informacional, ao uso excessivo e inapropriado das ferramentas, etc, transformando a rede, como temos visto, na rede do ego, na egologia digital.

(53% das pessoas, por exemplo, usam o Facebook para jogar e 20% destas se dizem viciadas no jogo. É esse o ambiente diferente humano novo que estamos construindo com a internet?).

Há, porém, uma mudança radical entre o ego informacional da Idade Mídia, que é o ego consolidante vertical, para um ego plataforma beta contínuo horizontal.

(Falei mais sobre isso neste áudio).

Há uma mudança radical dos egos em curso, ou seja, abre-se uma brecha para se falar mais intensamente de sabedoria, porém, não é algo que vem pronto, mas terá que ser batalhado, pois o ego plataforma, como bom ego que é, vai tomar conta e nos levar para as velhas compulsões.

Por enquanto, é isso, que mais você acrescentaria?

Questões? Não concordâncias? Discordâncias?

Me diga!



fonte: iMasters

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