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Crítica | Crimes Obscuros e o efeito de choque

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O efeito de choque, desenvolvido pelo alemão Walter Benjamin em seu ensaio A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica, tem seus adeptos no mundo do cinema. Se alguns movimentos de vanguarda do início do século XX no meio artístico, como o dadaísmo e o surrealismo, seguiram seus caminhos únicos ao anteciparem o dito efeito de choque em suas opções estéticas, as particularidades técnicas do cinema acabam exigindo uma forma de percepção e, especialmente, recepção da obra por parte do público.

Dentro desse conceito, é possível que um cinema realizado com o intuito do choque seja severamente culpabilizado. Isso porque se trata de uma arte explícita, intimamente humana, no sentido de que a possibilidade de ver um elenco de atores reais cometendo atrocidades ou sofrendo com elas pode tornar a percepção do filme extremamente amarga. Assim sendo, a recepção – que é o elemento final – transforma-se em sentimentos ruins ou é capaz de causar um mal-estar desnecessário.

Cuidado! Daqui em diante esta crítica pode conter spoilers.

A exploração desestruturada do horror

Crimes Obscuros é um filme que parece brincar em cima de uma corda bamba: Entregar-se ao filme é quase como uma viagem a devaneios, a turbilhões de emoções estranhas, mas sentir-se inteiramente entregue ao que o diretor Alexandros Avranas tenta passar esbarra em situações gratuitas. O despropósito de Avranas, por sinal, dá as caras em sua primeira cena, que já justifica a classificação indicativa do filme (18 anos) sem funcionar efetivamente para tudo o que se segue. Parece uma tentativa de referenciar o choque de Salò, ou os 120 Dias de Sodoma, mas sem a competência da linguagem cinematográfica e histórico-social do diretor italiano Pier Paolo Pasolini.

Diferente do seu conterrâneo Yorgos Lanthimos (de A Favorita, 2018), Avranas demonstra uma incapacidade crescente de lidar com estranhezas a medida que o filme avança. Enquanto Lanthimos consegue abraçar histórias fúnebres com naturalidade, criando paralelos com o que há de mais mesquinho na humanidade, as escolhas de Avranas manifestam uma procura incessante por algo que seu filme não é capaz de ser. É como se Crimes Obscuros pudesse ser um bom filme comum e acabasse sabotado por um diretor que vê o que tem em mãos como uma próxima obra-prima a ser referenciada.

(Imagem: Cinecolor)

Nesse sentido, a ideia de pegar uma trama policial sem qualquer novidade e com plot twists que dificilmente surpreenderão alguém é inteiramente avessa ao filme anterior do diretor, Miss Violence (2013), que lhe rendeu o Leão de Prata de direção no Festival de Veneza (entre outros prêmios). Mesmo assim, Crimes Obscuros reforça as muitas críticas negativas sobre Avranas que surgiram em Veneza e que discorrem sobre a exploração do horror, do incômodo e, consequentemente, revelam um intrínseco ódio pela humanidade. Essa misantropia do grego parece muito mais um reflexo de ego do que fé em si mesmo e em sua arte, até porque não há espelho dessa confiança no resultado do seu trabalho – especialmente no filme em questão. Dessa forma, qualquer tentativa do conteúdo mais do mesmo ser minimamente relevante escorre por entre os dedos de uma estrutura nascida falida.

O existencialismo e a gourmetização

Ainda assim, o elenco é de uma competência absurda (no melhor sentido dessa palavra). Jim Carrey, afastado de Hollywood por vontade própria (ressaltando que Crimes Obscuros foi produzido em 2016), interpreta um policial prestes a se aposentar da maneira mais dolorosa e intimista possível. As conhecidas expressões e o gestual do ator em...

comédias como O Máscara (de Chuck Russell, 1994) dão lugar a uma atuação positivamente econômica. Sua movimentação sempre calculada e claramente prestes a romper em uma depressiva explosão de ira só é desvendada em dois pontos essenciais: o sexo e morte. E, aqui, felizmente, reflexões causadas pela força de Carrey como ator podem ser inevitáveis. Nesse sentido, a intensa sensação de sua personagem, Tadek, ao praticar sadismo com Kasia (Charlotte Gainsbourg, de Ninfomaníaca: Volume 1 e Volume 2) só é comparável à sua queda ao descobrir a própria mãe morta. Há, à vista disso, uma interessante questão existencialista, pois trata-se daquilo que pode trazer a vida – o início dela – àquilo que é o fim, a morte (Tadek não estaria metamoforicamente morto desde o princípio?).

Obviamente, a impressão é a de que Avranas soube lidar bem com o elenco e acabou incensando o próprio filme no restante de sua totalidade. Do outro lado da mesma moeda, ele (Avranas) não incenssou, ele acreditou a sério que tinha um material para ser realizado em uma forma a ser cultuada. Câmeras frontais, que separam bem as personagens opostas – e realmente funcionam –, surgem como um filete de mostarda da mais cara em um sanduíche “sebosão”. É como uma prova de que um “sebosão” é feito para comer se lambuzando mesmo; ele (o “sebosão”) é o que há de melhor em seu mundo… e sem a necessidade de gourmetização com galhinhos de alecrim.

(Imagem: Cinecolor)

A fotografia do polonês Michal Englert faz o possível para atender à seriedade proposta pela direção. Seus jogos de luzes e sombras, especialmente quando Kozlov (o canastrão Marton Csokas, de O Protetor) está sendo interrogado por Tadek (Carrey) é eficiente ao deixar sempre em destaque aquele que domina o embate no momento. Por outro lado, com a história rasa e mal desenvolvida, o trabalho de Englert acaba por ter o mesmo efeito dos galhinhos de alecrim ou de brotos de alfafa. O mesmo pode ser dito da trilha sonora de Richard Patrick (um dos poucos americanos na equipe), que contribui para causar o clima forçadamente dark da história que naturalmente (e pelo peso de ser inspirada em fatos) poderia desenvolver suas tonalidades sombrias.

O pobre efeito de choque

A europeização do filme, por sua vez, assim como a escolha de língua, provoca algo que é tão prepotente quanto primário. Visivelmente buscando atingir um público mais amplo, Avranas está à frente de um filme que se passa na Polônia com um elenco que é, quase que em sua completude, de países europeus e Carrey (a única exceção clara, sendo canadense) é justamente o protagonista… todos interpretando poloneses e falando em inglês.

(Imagem: Cinecolor)

A sorte de Avranas é que, realmente, Carrey está com sua personagem completamente internalizada e Gainsbourg é de uma desenvoltura mais do que sólida – talvez a atriz mais visceral da sua geração. Se não fosse a dupla (e até um pouco da canastrice de Csokas), essa tentativa de tornar uma história mal escrita em algo válido poderia ter resultado em uma produção desprezível. Pior: a visão tóxica do diretor tem força para afetar a percepção e prejudicar a sua recepção, o que pode fazer com que até mesmo o elenco seja vítima de um efeito de choque pobre, que age na gratuidade e é utilizado para chamar a atenção – não para o filme (como o faz Lanthimos), mas para si.

Fonte:Canaltech

Crítica | Crimes Obscuros e o efeito de choque

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O efeito de choque, desenvolvido pelo alemão Walter Benjamin em seu ensaio A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica, tem seus adeptos no mundo do cinema. Se alguns movimentos de vanguarda do início do século XX no meio artístico, como o dadaísmo e o surrealismo, seguiram seus caminhos únicos ao anteciparem o dito efeito de choque em suas opções estéticas, as particularidades técnicas do cinema acabam exigindo uma forma de percepção e, especialmente, recepção da obra por parte do público.

Dentro desse conceito, é possível que um cinema realizado com o intuito do choque seja severamente culpabilizado. Isso porque se trata de uma arte explícita, intimamente humana, no sentido de que a possibilidade de ver um elenco de atores reais cometendo atrocidades ou sofrendo com elas pode tornar a percepção do filme extremamente amarga. Assim sendo, a recepção – que é o elemento final – transforma-se em sentimentos ruins ou é capaz de causar um mal-estar desnecessário.

Cuidado! Daqui em diante esta crítica pode conter spoilers.

A exploração desestruturada do horror

Crimes Obscuros é um filme que parece brincar em cima de uma corda bamba: Entregar-se ao filme é quase como uma viagem a devaneios, a turbilhões de emoções estranhas, mas sentir-se inteiramente entregue ao que o diretor Alexandros Avranas tenta passar esbarra em situações gratuitas. O despropósito de Avranas, por sinal, dá as caras em sua primeira cena, que já justifica a classificação indicativa do filme (18 anos) sem funcionar efetivamente para tudo o que se segue. Parece uma tentativa de referenciar o choque de Salò, ou os 120 Dias de Sodoma, mas sem a competência da linguagem cinematográfica e histórico-social do diretor italiano Pier Paolo Pasolini.

Diferente do seu conterrâneo Yorgos Lanthimos (de A Favorita, 2018), Avranas demonstra uma incapacidade crescente de lidar com estranhezas a medida que o filme avança. Enquanto Lanthimos consegue abraçar histórias fúnebres com naturalidade, criando paralelos com o que há de mais mesquinho na humanidade, as escolhas de Avranas manifestam uma procura incessante por algo que seu filme não é capaz de ser. É como se Crimes Obscuros pudesse ser um bom filme comum e acabasse sabotado por um diretor que vê o que tem em mãos como uma próxima obra-prima a ser referenciada.

(Imagem: Cinecolor)

Nesse sentido, a ideia de pegar uma trama policial sem qualquer novidade e com plot twists que dificilmente surpreenderão alguém é inteiramente avessa ao filme anterior do diretor, Miss Violence (2013), que lhe rendeu o Leão de Prata de direção no Festival de Veneza (entre outros prêmios). Mesmo assim, Crimes Obscuros reforça as muitas críticas negativas sobre Avranas que surgiram em Veneza e que discorrem sobre a exploração do horror, do incômodo e, consequentemente, revelam um intrínseco ódio pela humanidade. Essa misantropia do grego parece muito mais um reflexo de ego do que fé em si mesmo e em sua arte, até porque não há espelho dessa confiança no resultado do seu trabalho – especialmente no filme em questão. Dessa forma, qualquer tentativa do conteúdo mais do mesmo ser minimamente relevante escorre por entre os dedos de uma estrutura nascida falida.

O existencialismo e a gourmetização

Ainda assim, o elenco é de uma competência absurda (no melhor sentido dessa palavra). Jim Carrey, afastado de Hollywood por vontade própria (ressaltando que Crimes Obscuros foi produzido em 2016), interpreta um policial prestes a se aposentar da maneira mais dolorosa e intimista possível. As conhecidas expressões e o gestual do ator em...

comédias como O Máscara (de Chuck Russell, 1994) dão lugar a uma atuação positivamente econômica. Sua movimentação sempre calculada e claramente prestes a romper em uma depressiva explosão de ira só é desvendada em dois pontos essenciais: o sexo e morte. E, aqui, felizmente, reflexões causadas pela força de Carrey como ator podem ser inevitáveis. Nesse sentido, a intensa sensação de sua personagem, Tadek, ao praticar sadismo com Kasia (Charlotte Gainsbourg, de Ninfomaníaca: Volume 1 e Volume 2) só é comparável à sua queda ao descobrir a própria mãe morta. Há, à vista disso, uma interessante questão existencialista, pois trata-se daquilo que pode trazer a vida – o início dela – àquilo que é o fim, a morte (Tadek não estaria metamoforicamente morto desde o princípio?).

Obviamente, a impressão é a de que Avranas soube lidar bem com o elenco e acabou incensando o próprio filme no restante de sua totalidade. Do outro lado da mesma moeda, ele (Avranas) não incenssou, ele acreditou a sério que tinha um material para ser realizado em uma forma a ser cultuada. Câmeras frontais, que separam bem as personagens opostas – e realmente funcionam –, surgem como um filete de mostarda da mais cara em um sanduíche “sebosão”. É como uma prova de que um “sebosão” é feito para comer se lambuzando mesmo; ele (o “sebosão”) é o que há de melhor em seu mundo… e sem a necessidade de gourmetização com galhinhos de alecrim.

(Imagem: Cinecolor)

A fotografia do polonês Michal Englert faz o possível para atender à seriedade proposta pela direção. Seus jogos de luzes e sombras, especialmente quando Kozlov (o canastrão Marton Csokas, de O Protetor) está sendo interrogado por Tadek (Carrey) é eficiente ao deixar sempre em destaque aquele que domina o embate no momento. Por outro lado, com a história rasa e mal desenvolvida, o trabalho de Englert acaba por ter o mesmo efeito dos galhinhos de alecrim ou de brotos de alfafa. O mesmo pode ser dito da trilha sonora de Richard Patrick (um dos poucos americanos na equipe), que contribui para causar o clima forçadamente dark da história que naturalmente (e pelo peso de ser inspirada em fatos) poderia desenvolver suas tonalidades sombrias.

O pobre efeito de choque

A europeização do filme, por sua vez, assim como a escolha de língua, provoca algo que é tão prepotente quanto primário. Visivelmente buscando atingir um público mais amplo, Avranas está à frente de um filme que se passa na Polônia com um elenco que é, quase que em sua completude, de países europeus e Carrey (a única exceção clara, sendo canadense) é justamente o protagonista… todos interpretando poloneses e falando em inglês.

(Imagem: Cinecolor)

A sorte de Avranas é que, realmente, Carrey está com sua personagem completamente internalizada e Gainsbourg é de uma desenvoltura mais do que sólida – talvez a atriz mais visceral da sua geração. Se não fosse a dupla (e até um pouco da canastrice de Csokas), essa tentativa de tornar uma história mal escrita em algo válido poderia ter resultado em uma produção desprezível. Pior: a visão tóxica do diretor tem força para afetar a percepção e prejudicar a sua recepção, o que pode fazer com que até mesmo o elenco seja vítima de um efeito de choque pobre, que age na gratuidade e é utilizado para chamar a atenção – não para o filme (como o faz Lanthimos), mas para si.

Fonte:Canaltech