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Tem filho pequeno em casa? Então, cuidado com as telas!

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Já não é de hoje que estudos se concentram em entender se a luz azul, transmitida pelos smartphones, notebooks e afins, é prejudicial para os olhos ou para outras áreas da saúde, de alguma forma. No ano passado, inclusive, conversamos com especialistas que chegaram à conclusão de que as telas não são inimigas, desde que usadas de forma adequada. Mas será que isso se aplica às crianças também, ou será que as telas têm um potencial mais prejudicial no que diz respeito ao público infantil?

Para começar, Arthur Igreja, especialista em Tecnologia e Inovação e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), nos esclarece o que é a luz azul: “É uma frequência emitida, um espectro de luz que é emitido pelos aparelhos eletrônicos e comprovadamente está relacionada ao cansaço e estresse, pois não é natural para o corpo humano ter relacionamento com esse tipo de cor por muito tempo”, explica.

Segundo o professor, a parte danosa é justamente por ser emitida com muita intensidade pelos aparelhos eletrônicos e por ser uma frequência que não é natural para o organismo. “Temos que lembrar que o corpo humano teve uma adaptabilidade ao longo do tempo em à noite ter muita escuridão. É um fato estranho para o ser humano, depois do entardecer, ter luz artificial. E esse espectro de onda está muito relacionado ao despertar, ao dia, à atividade. Ou seja, o cérebro entende que deveria estar ativo ao invés do descanso”, afirma.

Para combater isso, o especialista em tecnologia e inovação conta que nos últimos anos já foi desenvolvido o modo noturno, e existem alguns óculos que filtram essa frequência, mas o mais comum é a configuração para que o aparelho emita muito menos essa luz, com a imagem ficando mais amarelada, em tom de âmbar, para ajudar a mitigar esse estímulo.

Questionamos o professor, então, se deixar o brilho do celular ao máximo é ainda mais prejudicial. “Com certeza, pois se tem uma intensidade maior de estímulo, o olho e o corpo são sobrecarregados. É possível habilitar o modo de pouca emissão de luz azul, mas além disso, a intensidade da luz pode ser regulada. Nos sistemas Android e iOS já há algum tempo têm essa adaptabilidade conforme a luz ambiente, em que o aparelho usa sensores para entender o quão escuro está para se adequar”, declara.

Luz azul e vista infantil

Especialistas esclarecem se o acesso excessivo às telas (smartphones, notebooks, tablets) pode prejudicar a vista do público infantil (Imagem: Reprodução/Rawpixel)

Mas o que a oftalmologia tem a dizer sobre o acesso excessivo às telas? Para entender esses possíveis prejuízos à saúde dos olhos das crianças, a equipe do Canaltech conversou com a oftalmologista Dra. Juliane Arrivabene. A especialista começa dizendo que, apesar de inúmeras pesquisas na área, “nenhum estudo no mundo conseguiu comprovar lesões permanentes nos olhos humanos com a luz azul”.

Mas mesmo sem as lesões permanentes, a oftalmologista comenta que o uso excessivo de telas podem estar associados a astenopia (cansaço ocular). “Os olhos das crianças são mais sensíveis à radiação solar que os olhos dos adultos. Devido ao cristalino ser mais transparente, absorvem mais radiação que os olhos dos adultos”, explica Dra. Juliane. Isso quer dizer, portanto, que a exposição é mais prejudicial ainda nas crianças, de certa forma, “pelo fato da criança estar em franco desenvolvimento ocular e neurológico”.

Um estudo norte-americano publicado na revista científica National Library of Medicine aponta que à medida que envelhecemos, as estruturas de nossos olhos se tornam gradualmente menos sensíveis à luz. “O envelhecimento aumenta a absorção de luz e diminui a área da pupila, resultando em perda progressiva da fotorrecepção. Uma criança de 10 anos tem fotorrecepção dez vezes maior do que um adulto de 95 anos, por exemplo, ao que um adulto de 45 anos retém apenas metade da fotorrecepção do início da juventude”, aponta o estudo.

“A iluminação retiniana diminui com o envelhecimento devido à redução da transmissão de luz do cristalino, especialmente em comprimentos de onda curtos. Luz ambiental inadequada e pode causar aumento do risco de insônia, depressão e vários distúrbios sistêmicos. A iluminação artificial é mais fraca e menos ponderada em azul do que a luz do dia natural”, o estudo reitera.

Segundo a especialista, a exposição continua e abusiva da tecnologia pode levar ao surgimento da miopia. “Mais pessoas estão se tornando míopes hoje se comparado a décadas atrás”, aponta. Dra. Juliane ainda menciona a astenopia, ou cansaço ocular: “Deve-se à contração continua do músculo de acomodação. Isso se dá quando a criança fica muito tempo olhando para perto como no caso do uso dos eletrônicos”, explica.

Com isso, a questão que vem à mente é: quanto tempo por dia uma criança pode ficar no celular/tablet/computador sem comprometer a sua vista? “Crianças não devem ficar expostas a eletrônicos por longos períodos, segundo a Organização Mundial de Saúde. Crianças abaixo de 2 anos não devem ter contato com eletrônicos. Crianças de 2 a 5 anos no máximo uma hora por dia”, sugere a especialista.

A oftalmologista aproveita para dar dicas para manter os cuidados da vista das crianças: “A primeira dica é, sempre levar seu filho ao oftalmologista com periodicidade. A segunda dica é reduzir o tempo de exposição aos eletrônicos. A terceira fica é proporcionar alimentação saudável que contribua para saúde ocular, e a quarta dica é o uso do óculos de sol”, recomenda Dra. Juliane.

Sono


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Estudos norte-americanos relacionam a alta exposição às telas e à luz azul a prejuízos no sono (Imagem: Jelleke Vanooteghem/Unsplash)

Um outro estudo publicado na revista científica National Library of Medicine aponta que à medida que a tecnologia se tornou comum na vida cotidiana, a qualidade do sono nas crianças foi prejudicada. A análise diz, inclusive, que aproximadamente um terço das crianças e mais da metade dos adolescentes não dorme o suficiente.

O que acontece, segundo o estudo em questão, é que gastar horas nas telas durante o período noturno acaba justamente culminando em menos horas para dormir, e o conteúdo estimulante pode diminuir a sonolência. Outro mecanismo pelo qual os eletrônicos podem afetar o sono, de acordo com a pesquisa, é justamente a luz azul emitida por esses dispositivos.

“Com o uso generalizado de dispositivos eletrônicos portáteis e a normalização de dispositivos de mídia de tela no quarto, sono insuficiente se tornou comum. Em uma revisão de estudos, 90% dos incluídos encontraram uma associação entre o uso de tela de mídia e atraso na hora de dormir ou diminuição do tempo total de sono”, consta o estudo.

“Este fenômeno generalizado de perda de sono pediátrica tem implicações generalizadas. Há uma necessidade de pesquisa básica e clínica examinando os efeitos da mídia de tela na perda de sono e consequências para a saúde em crianças e adolescentes para educar e motivar médicos, professores, pais e os próprios jovens a promover hábitos de sono saudáveis”, acrescenta.

Outro estudo publicado nessa mesma revista apontou que a exposição à luz solar durante o dia pode promover energia e concentração para as crianças, além de melhorar a qualidade e a duração do sono, mas que em contrapartida, o uso de dispositivos que produzem luz azul artificial durante o período vespertino e noturno interrompe o ciclo natural de sono e despertar, induzindo o cérebro a não produzir melatonina antes de dormir, fazendo com que as crianças se sintam menos sonolentas do que deveriam na hora de ir para a cama.

“As variações rítmicas na iluminação ambiente afetam os comportamentos, como o descanso durante o sono e a atividade durante o despertar, bem como seus processos biológicos. Recentemente, a disponibilidade de luz artificial mudou substancialmente o ambiente de luz, especialmente durante a tarde e a noite”, concluiu o estudo.

Desenvolvimento infantil

Especialistas da psicologia trazem à tona os possíveis prejuízos da alta exposição às telas para o desenvolvimento das crianças (Imagem: Erik Odiin/Unsplash)

No entanto, a exposição às telas não atrapalha apenas a vista ou o sono das crianças. De acordo com especialistas da psicologia, esse excesso pode afetar até mesmo o desenvolvimento. Segundo a Dra. Deborah Moss, neuropsicóloga mestre em psicologia do desenvolvimento, o acesso a essas telas tem a sua parte positiva, considerando o contato social (como poder falar com os avós) e ter atividades lúdicas escolares, principalmente durante essa pandemia, mas que o excesso pode causar prejuízos sim.

“O excesso de telas tira a oportunidade da criança fazer outras atividades que são imprescindíveis para o desenvolvimento, principalmente a parte motora, a exploração do corpo, as vivências lúdicas de correr, pular, subir, descer, essa parte física, mas também a parte psicomotora, de desenhar, pintar, encaixar”, aponta a especialista.

A neuropsicóloga menciona, como os riscos, desde o sedentarismo até a dificuldade com a escrita. “A criança que tem pouca vivência do corpo no espaço físico pode apresentar atrasos nessas aquisições que são próprias para cada faixa etária. Tem também a questão do isolamento: pouca interação com o outro, porque a criança fica presa a atividades solitárias”, Dra. Deborah explica.

Dra. Gabriela Luxo — psicóloga, mestre e doutora em distúrbios do desenvolvimento — ressalta que esse impacto no desenvolvimento, decorrente do acesso excessivo às telas, ocorre porque a criança não tem maturidade para saber utilizar as telas de uma forma a favor dela, pensando tanto na parte cognitiva quanto os prejuízos físicos. “É importante que tenha sempre um supervisor. É interessante que crianças pequenas usem [as telas] por poucas horas no dia, num horário que não afete o sono ou a alimentação, por exemplo”, recomenda.

“Quando a criança fica se alimentando enquanto vê as telas, não presta atenção na comida, não sabe nem o que está comendo, não consegue discernir os sabores. Se utiliza essas telas antes de dormir, acaba tendo um sono mais agitado, acaba tendo fantasias mais negativas baseadas no conteúdo que ela viu”, menciona a psicóloga.

Questionada sobre o que os pais devem fazer, a psicóloga indica: “Sempre orientar essas crianças antes mesmo delas irem para jogos e tudo o mais. Supervisionar não é ficar vigiando, e sim explicar, mostrar os riscos. Em todas as idades, é importante que os pais estejam entendendo, escutando os filhos. Parece muito simples, mas há necessidade de escuta, porque às vezes por trás do passar muito tempo jogando tem quadros de ansiedade, e o jogo acaba sendo um refúgio”, reitera a especialista.

Dra. Gabriela recomenda ter uma rotina bem estabelecida — e aponta que isso é algo que muitas famílias têm grande dificuldade — e indica colocar nessa rotina aquela hora dedicada ao uso das tecnologias, mas também convidar essa criança para outras atividades.

Fonte: Com informações de National Library of Medicine (1, 2, 3) via Sleep Foundation

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